#124: Baterias domésticas, prédios como lego e o fim da posse

o modelo tradicional de moradia está mudando, e os sinais estão por todos os lados.

Bruno Loreto
Por Bruno Loreto
Sócio | Terracotta Ventures

O imóvel do futuro será diferente do que o mercado acostumou a construir. Não se trata só de onde ele está ou quanto ele custa — mas do que ele é capaz de fazer por quem o habita.

O porão está virando usina de energia. Prédios são montados como um Lego. A moradia virou serviço. E investidores, cada vez mais, querem retorno previsível e resiliência energética — não só localização.

É hora de aceitar: o modelo tradicional de moradia está mudando, e os sinais estão por todos os lados.

NA EDIÇÃO DE HOJE:
🏠 Compra e venda perde espaço para a moradia por assinatura
🔋 Baterias tornam a energia um novo ativo residencial
🪜 Construção modular reduz custo, tempo e juros
💰 Funding se adapta à industrialização das moradias
📈 Locação cresce com pequenos e médios investidores
❓E se o imóvel não for mais o centro da equação?
RESIDÊNCIA COMO SERVIÇO

O modelo tradicional de compra e venda de imóveis está morrendo

O imóvel residencial não será mais um ativo fixo, mas uma plataforma de serviços. A lógica de produto dá lugar à lógica de assinatura.

Com a alta nos preços dos imóveis (7,73% em 2024) e a renda estagnada (IPCA a 4,64%), jovens priorizam mobilidade, flexibilidade e experiência. A posse perdeu apelo simbólico.

Gráfico 1 Gráfico 2

Serviços como limpeza, coworking, gym e concierge — acessados por app — viram diferencial competitivo e aumentam o valor do m² em até 34%, segundo a JLL.

O modelo RaaS (Residence as a Service) já movimenta bilhões e conta cada vez mais com empresas que se profissionalizaram na atividade e estão conseguindo entregar performance.

  • Liiv opera com margem de +25%
  • Charlie tem yield de 8 a 12%
  • Cyrela + HBR Realty projetam retorno de até 15% a.a.

Projeção (ABRAINC): até 30% do mercado residencial brasileiro pode operar nesse modelo até 2030.

Eduardo Buzzi contribuiu essa semana com sua visão sobre a tese de residência como serviço em artigo publicado pela ADIT. Acesse aqui.

CLIMATE TECH

A nova energia do mercado residencial: meio milhão de baterias nos lares americanos

O mercado imobiliário residencial está sendo redesenhado por dentro — e uma das mudanças mais profundas está na energia. O boom das baterias domésticas nos EUA sinaliza que a autossuficiência elétrica será um novo diferencial competitivo no setor.

O que era nicho virou padrão. Em 2024, o número de casas com baterias nos EUA cresceu 64%, chegando a 3.028 MWh de capacidade instalada em meio milhão de lares.

Gráfico Store Baby Store

As razões são múltiplas:

  • Apagões frequentes e contas flutuantes levam famílias a buscar estabilidade energética.
  • A queda no preço das baterias (graças a novas químicas e à deflação solar) tornou o investimento mais acessível.
  • Para quem tem painel solar, armazenar energia vale mais que vender à rede — o payback melhorou.

Casos como Alemanha e Itália mostram o caminho: lá, mais de 70% dos novos sistemas solares já vêm com bateria integrada.

Pode parecer distante, mas nos acostumamos a ver a cada forte chuva em São Paulo, milhares de residências ficarem dias sem energia.

Ícone energia

Assim como o ar-condicionado virou padrão em regiões quentes, a bateria pode virar obrigatória em mercados de risco climático. Incorporadoras atentas a isso terão uma vantagem estrutural — e uma nova fonte de receita. Já pensou em ter seu novo lançamento imobiliário como um projeto à prova de apagão?

CONSTRUÇÃO MODULAR

Montando prédios como lego ao mesmo tempo que reduz custo de capital

O setor de habitação acessível encontra na construção modular uma solução viável para três crises simultâneas: custo, tempo e sustentabilidade.

O conjunto Bethany Terraces, no Brooklyn, entrega 57 unidades para idosos em um prédio montado com módulos pré-fabricados, 100% elétrico e com padrão Passive House. (já falamos desse conceito por aqui)

Bethany Terraces
Fonte: Open House New York/Jehovy

Resultado:

  • Tempo de obra reduzido em 30%
  • Unidades chegam prontas, e demandam menos mão de obra
  • Economia de juros próxima a US$ 800 mil

Mais que uma inovação estética, trata-se de uma transformação operacional — com impacto direto na viabilidade econômica dos projetos.

Ícone

A próxima fronteira é cultural e regulatória. Os desafios não são técnicos — são normativos e mentais. A questão agora é: quanto tempo até isso se tornar o novo padrão no Brasil?

LOCAÇÃO

Quem são os proprietários de imóveis unifamiliares para locação?

Frequentemente falamos sobre a maturidade do mercado imobiliário americano e como fundos institucionais exploram o segmento para renda.

Contudo, o segmento de residências unifamiliares não desperta grande atenção.

Ano passado circulou a ideia de que investidores profissionais (como BlackRock) compraram 44% dos imóveis individuais unifamiliares dos EUA. Mas os dados desmentem essa narrativa.

Gráfico Propriedade Institucional
Fonte: Wood Mackenzie Power & Renewables, American Clean Power Association

O que os dados mostram:

  • Investidores institucionais representaram menos de 5% do mercado no pico (2022); em 2024, caíram para cerca de 2%.
  • A maior parte das compras vem de pessoas físicas e pequenos investidores (1 a 9 imóveis).
  • Compradores primários com hipoteca são quem impulsionam o mercado — e não grandes fundos, que compram à vista.

Os números reforçam o que faz sentido: Quanto mais profissional for a decisão de investimento imobiliário para a renda, mais se chegará à conclusão que o melhor é ser o dono do prédio e não de unidades individuais.

Por que importa:

  • O mito alimenta pânico injustificado sobre o acesso à moradia.
  • Pode gerar propostas legislativas equivocadas com base em desinformação.
  • A discussão real deve focar em estoque, preços, crédito e geração de renda.
UMA ÚLTIMA PROVOCAÇÃO

E se o imóvel deixar de ser o centro?

O mercado ainda trata o imóvel como o protagonista absoluto. Mas o que os dados, os movimentos dos consumidores e os investimentos mostram é que a experiência está migrando do imóvel para os serviços ao redor dele.

Energia, mobilidade, conectividade, segurança, conveniência. Quem entrega isso de forma fluida constrói valor real — e não apenas parede.

No fim, talvez o novo símbolo de status não seja mais o CEP — mas a autonomia que o espaço oferece.

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